sábado, 17 de setembro de 2011

Ser ignorante é uma escolha!


      Lá tinha eu de escolher um título pretensioso para primeiro post com palavras...

      Comecei com isto por causa de uma discussão (amigável) que tive, e com a qual acabei por me enervar sem necessidade apesar de não o ter demonstrado. Enervei-me porque o meu interlocutor fazia constantes julgamentos cheios de preconceito e sem fundo de conhecimento. Das suas suposições criava factos, somando A + B sem perceber que A + B nem sempre é igual a C.

      É uma postura muito portuguesa, todos tem uma opinião formada sobre os assuntos, opinião essa que muitas vezes se limita a repetir o que ouviram. Seja de pessoas das quais confiam, seja pelos media que nos atiram comentadores "sabe tudo", a posição crítica dos acontecimentos e factos do mundo foi substituída pelo "diz que disse" e pelo "se não sei invento" burro é que não vou parecer.

Enganam-se.

      Sempre tive muita curiosidade sobre tudo, ou quase tudo, mas houve um momento em que percebi que não estava a absorver as coisas como devia, pois os meus parcos conhecimentos sobre as matérias não eram suficientes para fazer julgamentos justos sobre o que observava.
      Quando comecei a interessar-me por arte, tal como todos os que começam, ficava fascinado com algumas obras, muito bem pintadas, dos grandes nomes como Rembrant, Leonardo, Caravaggio e o inevitável Salvador Dalí. Tudo o que saía desta representação "realista" da realidade não entendia e como não entendia, criticava. Não percebia como Pablo Picasso podia ser um artista reconhecido, como Marcel Duchamp podia algum dia figurar num livro de história da arte, como é que alguém podia dizer que o Quadrado Branco Sobre Fundo Branco do Kazimir Malevich era um ponto de charneira em toda a arte. Como não entendia porque nem sequer me dava ao trabalho de ler alguma coisa sobre o assunto, não compreendia a arte que era realizada a partir do início do século XX. E aqui estava eu às portas do século XXI com um pensamento de há um século atrás.

      Tudo isto para dizer que o conhecimento é essencial para a compreensão das várias representações e evoluções que vemos na história, no nosso dia a dia, e no pensamento dos outros. O problema é que temos a tendência para subvalorizar algumas disciplinas e campos de actuação, por acharmos que é simples e porque não temos conhecimento para não fazer afirmações absurdas. Existem dois bons exemplos para mostrar isto: o futebol e a arte contemporânea. O futebol é lugar comum, já todos sabemos que existem inúmeros treinadores de bancada, desde comentadores a antigos profissionais. O que é difícil entender para a maioria das pessoas é a profundidade tanto a nível dos processos físicos como psicológicos que uma equipa enfrenta e como lidar com eles. O desconhecimento destes dois campos leva a que a maioria das pessoas simplifique de forma extrema este desporto e critique, sem perceber a sua ignorância, tanto as opções de um treinador e equipa técnica como a performance de determinado elemento da equipa.
Com a arte contemporânea acontece o mesmo, enervei-me com um "São só uns sarrabiscos, isso também eu fazia, acho que me vou dedicar e quando morrer vão valer muito dinheiro." E numa só frase consegue-se extrapolar a ignorância profunda sobre o tema.

      Não é a minha intenção querer com isto dizer que se deve saber sobre tudo porque isso não é exequível, mas se não existe um conhecimento com bases mais ou menos sólidas sobre uma determinada matéria, abstenham-se de comentários jocosos e desinformados. Não vão conseguir ganhar superioridade numa discussão, vão apenas mostrar o quanto são néscios e possivelmente ganhar a indiferença e até algum repúdio do vosso interlocutor. Aprendi isto da pior forma, mas aprendi.

    Nos últimos anos assistimos a um grande crescimento na divulgação e difusão da leitura, com a edição de livros a manter-se num número constante, apesar da crise. Quando vou a uma feira do livro está normalmente com bastante público e muitos a comprarem. Como é que se compreende que a ignorância esteja na moda com o facto anteriormente descrito? Simplesmente porque os livros estão a decorar a prateleira lá de casa, muitos deles desfolhados apenas no dia da compra.

    Se a ignorância é uma escolha? Sim é. A quantidade de informação que está ao alcance do comum habitante português é muito superior há que encontramos há 20 anos atrás por exemplo. No entanto tanto ao nível do conhecimento como da cultura não evoluímos quase nada. Isto é um problema grave pois estende-se por contaminação a muitos sectores da sociedade. A questão das relações de trabalho é afectada directamente por esta ignorância alegremente assumida, assim como a natural evolução das empresas. Mas isto é tema para um tópico novo.
    Para já vou ver se aprendo mais qualquer coisa nova.